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Análise · Investimento & Flexibilidade

O que muda quando acompanhamos as mesmas usinas Tipo III

Dois episódios, a mesma coorte e diferenças que aparecem quando fonte, histórico e território entram na leitura.

Felipe Figueiró6 de outubro de 20264 min de leituraAL-2026-006versão 1.0

Fontes

Tese

Quando acompanhamos as mesmas usinas Tipo III em dois episódios, o resultado agregado começa a se abrir: a recorrência muda entre fontes, se concentra territorialmente e o comportamento anterior à janela muda parte da interpretação.

Os acionamentos envolvendo usinas Tipo III ajudam a avançar numa discussão que venho fazendo sobre os recursos conectados à distribuição. Ao acompanhar as mesmas usinas em junho e agosto, aparecem diferenças que o resultado agregado acaba reunindo. As hidráulicas são mais numerosas entre aquelas com repetição do padrão de queda, mas a proporção é maior nas agroindustriais. E, dentro desse segundo grupo, a concentração em São Paulo e Minas Gerais chama atenção.

Isso me interessa porque pode haver uma combinação entre as características dos recursos, suas condições de operação e a rede à qual estão conectados. Quanto dessas diferenças acompanha o perfil das usinas e quanto pode estar relacionado à coordenação operativa ou à sua conexão elétrica? Os dados ajudam a formular essa pergunta, ainda sem separar essas explicações.

Para olhar essa relação, acompanhei o mesmo conjunto de 1.092 usinas nos episódios de 7 de junho e 23 de agosto de 2026, com geração horária da CCEE e informações cadastrais de ONS e ANEEL. A análise considera as quedas frente ao histórico e o comportamento anterior à janela. Estamos olhando para a geração observada, sem assumir que todas essas usinas receberam ou executaram uma ordem de redução.

As diferenças entre as fontes

Em 99 usinas, o padrão apareceu nos dois episódios. Desse total, 59 são hidráulicas e 34 são agroindustriais. Quando considero o conjunto observado de cada fonte, são 59 entre 727 hidráulicas, ou 8,1%, e 34 entre 178 agroindustriais, ou 19,1%. A leitura muda porque a quantidade de casos também depende de quantas usinas daquela fonte estamos acompanhando.

FIGURA 1 — RECORRÊNCIA E DENOMINADOR
FIGURA 1 — RECORRÊNCIA E DENOMINADORAXIONN Energia

Para interpretar essa diferença, entram questões como safra, hidrologia, manutenção e disponibilidade. Algumas usinas também apresentaram esse padrão em outros domingos, o que reforça a importância de conhecer seu comportamento habitual. A repetição em dois episódios ajuda a direcionar a investigação, mas ainda é pouco para tratar isso como uma característica permanente desses recursos.

Quando o território entra na leitura

A localização acrescenta uma relação interessante. Entre as agroindustriais com UF identificada de forma única, São Paulo e Minas Gerais reúnem 32 das 34 usinas com repetição do padrão, ou 94,1%. Esses estados representam 113 das 177 usinas observadas nesse recorte, ou 63,8%. Ou seja, a concentração dos casos é maior que a participação dos dois estados no próprio conjunto analisado.

FIGURA 2 — GEOGRAFIA E CARTEIRA
FIGURA 2 — GEOGRAFIA E CARTEIRAAXIONN Energia

Isso merece ser olhado com mais detalhe. O perfil produtivo, o porte das usinas e os procedimentos operacionais podem participar dessa concentração. O mapa por estado, porém, ainda não mostra como cada ativo se relaciona eletricamente com a rede. Para investigar essa relação, precisaríamos conhecer o ponto de conexão e as condições de operação naquele momento. Estar no mesmo território não significa necessariamente estar sujeito à mesma restrição elétrica.

O horário anterior também muda a leitura

O comportamento anterior à janela analisada traz outra diferença importante. Nas solares, em junho, a geração ficou 31,4% abaixo da referência na janela analisada. Ao descontar a diferença que já aparecia entre 6h e 10h, o desvio ajustado corresponde a 6,1% da referência. Nas agroindustriais, o movimento é no sentido contrário: o desvio passa de 21,2% para 31,1%.

FIGURA 3 — HORÁRIO E INTERPRETAÇÃO
FIGURA 3 — HORÁRIO E INTERPRETAÇÃOAXIONN Energia

Parte do que aparece durante a janela, portanto, já podia estar presente pela manhã. Em outros casos, a geração anterior estava acima da referência e isso muda a interpretação da queda ao longo do dia. Os 6,1% não são uma estimativa do corte solar causado pelo comando. São o resultado dessa comparação com o período anterior. A análise utiliza 10h–14h, no horário de Brasília, nos dois episódios; em agosto, o acionamento informado ocorreu entre 11h e 13h30.

Da medição à observabilidade

É aqui que volto à discussão sobre medição e observabilidade. Conseguir reconstruir a geração de uma usina ajuda a conhecer seu comportamento. Entender por que ele ocorreu envolve também a condição do recurso, os registros de comando e sua relação com a rede. Essas informações não estão todas reunidas nesta análise, o que é diferente de afirmar que não existem nos sistemas dos agentes.

Nos textos anteriores, procurei aproximar a coordenação entre transmissão e distribuição da necessidade de conhecer melhor os recursos disponíveis. Esses episódios permitem continuar essa discussão a partir de comportamentos concretos. Há diferenças por fonte e território que merecem investigação antes de atribuir uma explicação única às quedas.

E isso também importa quando pensamos em flexibilidade e novos investimentos. Conforme a explicação para o comportamento muda, muda o que faria sentido avaliar naquele local. A concentração encontrada ajuda a escolher onde aprofundar a análise, mas a contribuição de um recurso para a operação ainda depende de compreender como ele responde e em quais condições essa resposta pode ser útil para a rede.

Fontes e referências

  1. 1RelatórioPAR/PEL 2025 — Expansão da MMGD e participação das usinas Tipo IIIOperador Nacional do Sistema Elétrico — ONSO ONS destaca cerca de 19,2 GW de usinas Tipo III e discute a parcela de recursos conectados à distribuição sem supervisão e capacidade de controle em tempo real.
  2. 2Documento oficialConsulta Pública 034/2026 — aprimoramento da classificação operacional de usinas do SINAgência Nacional de Energia Elétrica — ANEEL · 14 de setembro de 2026Discussão regulatória sobre os critérios que definem a participação das usinas no planejamento, programação, supervisão e operação do SIN, inclusive considerando conjuntos de usinas com impacto agregado.
  3. 3Documento oficialConsulta Pública 033/2026 — observabilidade, operabilidade e controlabilidade de recursos energéticos distribuídosAgência Nacional de Energia Elétrica — ANEEL · 7 de setembro de 2026onsulta que discute requisitos para que recursos conectados à distribuição possam ser melhor observados, comunicados e coordenados conforme seu impacto sobre a rede.
  4. 4RelatórioPAR/PEL 2024 — observabilidade e controlabilidade dos recursos distribuídosOperador Nacional do Sistema Elétrico — ONSO documento trata observabilidade, controlabilidade e suportabilidade como atributos críticos e aponta a necessidade de maior coordenação entre ONS e agentes responsáveis pelos recursos distribuídos.

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