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Análise · Geração, Exposição & SIN

Curtailment: entre a compensação do passado e a exposição atual

Agosto elevou o volume e a duração dos cortes. Enquanto a compensação olha para eventos históricos, a exposição de 2026 continua sendo formada pela operação.

Felipe Figueiró24 de setembro de 20265 min de leituraAL-2026-005versão 1.1

Fontes

Tese

A compensação de eventos passados pode alterar a recuperação econômica dos agentes, mas não elimina a exposição atual: ela continua sendo determinada pela intensidade, pelo horário, pela causa dos cortes e pelas regras aplicáveis a cada ativo.

A discussão sobre curtailment ganhou uma nova camada com a apuração dos cortes potencialmente compensáveis. Para os agentes, identificar os eventos, conferir os montantes e entender seu enquadramento pode fazer diferença no resultado econômico.

Ao mesmo tempo, a operação continua produzindo novos registros de restrição. Agosto torna essa convivência particularmente visível: o volume cortado aumentou, o tempo sob restrições elevadas cresceu e a contribuição de cada causa mudou ao longo do dia.

Nos últimos meses, venho acompanhando essa evolução para entender o que o número agregado consegue mostrar — e o que só aparece quando abrimos a análise. Agosto permite observar tanto a mudança em relação a julho quanto a comparação com o mesmo período de anos anteriores.

Agosto mudou de patamar, mas o volume não explica tudo

Na base eólica e solar acompanhada pelo ONS e tratada pela AXIONN, agosto de 2026 somou 5,62 TWh de energia restringida. O volume ficou 29,9% acima de julho e 25,1% acima de agosto de 2025.

A comparação sazonal também chama atenção. Em agosto de 2024, o volume era de 2,30 TWh. Em 2025, chegou a 4,49 TWh. A taxa sobre a geração de referência passou de 16,2% para 25,4% e, agora, 27,8%.

Olhar volume e taxa em conjunto é importante porque o parque observado também muda. A entrada de usinas e a disponibilidade de recurso alteram a quantidade de energia exposta à operação. Por isso, o crescimento do volume, sozinho, não pode ser atribuído integralmente a uma piora das condições operativas.

O avanço da taxa acrescenta outra informação: uma parcela maior da geração de referência observada ficou restringida.

No acumulado de janeiro a agosto, os cortes somaram 24,10 TWh, 20,2% acima do mesmo período de 2025. O número dimensiona a evolução do ano, mas ainda não descreve como essa exposição se distribui entre dias, horários e ativos.

A média do mês convive com condições bastante diferentes

Por isso, mantivemos na apresentação a trajetória mensal acompanhada da faixa P10–P90 das taxas diárias. A linha mostra o percentual agregado do mês. A faixa permite observar a dispersão das condições registradas dentro dele.

Em agosto, o P90 diário chegou a 43,1%, contra 31,4% em julho. Trata-se de uma medida da distribuição observada, e não de uma previsão para os próximos meses.

Quando passamos para os intervalos de meia hora, outra mudança aparece. Julho e agosto tiveram 11 dias com algum intervalo de restrição acima de 60%. Apesar da mesma quantidade de dias, o tempo acumulado nesse patamar passou de 43,5 para 56,5 horas equivalentes. Acima de 80%, passou de 10,5 para 20 horas.

Contar os dias, portanto, não descreve toda a mudança. A duração acumulada em condições elevadas pode crescer mesmo sem aumento da maior sequência contínua. Para um ativo, a coincidência desses intervalos com seu perfil de geração pode alterar significativamente a exposição.

A causa que concentra o volume não é necessariamente a que explica a alta

Outro ponto relevante em agosto foi a composição do aumento.

A razão energética, ENE, continuou predominante e respondeu por 64,9% do volume restringido. Entretanto, na comparação com julho, indisponibilidade externa, REL, e confiabilidade elétrica, CNF, explicaram juntas 77,8% da alta, considerando a classificação por ativo-hora adotada nesta análise.

O recorte horário acrescenta uma segunda camada. O maior aumento do corte médio por faixa horária apareceu às 8h para ENE, às 9h para REL e às 15h para CNF.

Esses são os horários de maior variação entre os meses, e não necessariamente aqueles de maior volume absoluto de cada causa.

Essa distinção ajuda a direcionar a investigação. Um crescimento concentrado em determinada faixa exige olhar para os ativos, as regiões e as condições operativas presentes naquele período. O horário e o código de causa, isoladamente, ainda não explicam o mecanismo físico nem indicam qual solução teria evitado o corte.

Essa é uma continuidade da discussão apresentada em Quando a operação atravessa a fronteira da distribuição: a leitura agregada precisa ser acompanhada das condições em que a operação acontece.

Nesta análise, o recorte permanece sobre a geração eólica e solar centralizada da base do ONS, sem incluir MMGD.

A compensação histórica tem uma janela. A operação continua.

A Portaria MME nº 140/2026 disciplina a compensação histórica de eventos ocorridos entre 1º de setembro de 2023 e 25 de novembro de 2025.

Os cortes observados em 2026 ficam fora dessa janela. Isso não significa que nenhum evento atual possa receber tratamento por outras regras aplicáveis: o enquadramento continua exigindo análise caso a caso.

MME — procedimentos para compensação por cortes de geração

Mesmo que parte dos eventos passados possa gerar recuperação de valores, isso não muda o fato de que a operação continua criando exposição e pode exigir revisão das premissas de geração e receita daqui para frente.

Também é necessário separar energia restringida, valor econômico de referência e montante potencialmente compensável.

A valoração ao PLD ajuda a dimensionar economicamente a energia cortada, mas não reproduz automaticamente seu efeito no caixa de uma usina. Contratos, perfil de geração e enquadramento regulatório continuam fazendo diferença.

Para quem está olhando um investimento ou uma carteira, não basta saber quanto foi cortado. A questão é quanto dessa exposição já está nas premissas e como ela muda quando o corte aparece em outro horário, por outra causa ou com outra intensidade.

A leitura de agosto em gráficos

A trajetória mensal ajuda a colocar agosto em perspectiva. O mês combinou uma taxa de restrição de 27,82%, 5,62 TWh de energia restringida e maior dispersão das taxas diárias observadas.

Curtailment em agosto de 2026. O envelope P10–P90 representa a dispersão das taxas diárias observadas
Curtailment em agosto de 2026. O envelope P10–P90 representa a dispersão das taxas diárias observadas. Fonte: ONS e CCEE. Tratamento e análise: AXIONN Energia / Felipe Figueiró.AXIONN Energia

O valor econômico apresentado é uma referência para a energia restringida e não corresponde, isoladamente, a uma perda financeira ou a um montante potencialmente compensável.

Material de apoio

A apresentação completa reúne a trajetória mensal com P10–P90, a comparação de agosto entre os anos e a variação dos cortes por causa e horário.

**Ver apresentação completa**


Sobre os dados: cálculos próprios da AXIONN Energia a partir de bases públicas do ONS e CCEE. Os resultados refletem o universo e o período analisados, estão sujeitos a revisões das bases oficiais e não representam, isoladamente, estimativa de compensação ou impacto financeiro de ativos específicos.

Da análise à decisão

O risco não está apenas em quanto o sistema corta

A referência nacional ajuda a identificar mudanças de regime, mas não determina a exposição de um ativo.

Localização, perfil horário, causa da restrição, contratos e enquadramento regulatório podem produzir resultados diferentes mesmo sob uma mesma condição agregada do sistema.

Para decisões de investimento, contratação ou gestão de carteira, a análise precisa descer do SIN para o ativo: reconstruir onde e quando a exposição ocorreu, separar o que pode ser objeto de compensação e testar quais premissas de geração e receita permanecem defensáveis.

A AXIONN estrutura essa leitura combinando dados operativos, perfil horário, documentação e regras aplicáveis ao caso.

Fontes e referências

  1. 1DatasetRestrições de operação por constrained-off em usinas eólicasONSRegistros operativos utilizados no cálculo da energia restringida e dos recortes temporais.
  2. 2DatasetRestrições de operação por constrained-off em usinas fotovoltaicas.ONSRegistros operativos da geração solar centralizada.
  3. 3Documento oficialProcedimentos para compensação por cortes de geração.MME · 21 de julho de 2026Janela histórica e operacionalização do termo de compromisso.
  4. 4LegislaçãoLei nº 10.848/2004, texto compiladoGOV PlanaltoBase legal para a distinção entre compensação histórica e tratamento das restrições.

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